RELAÇÕES

 

 

 

Sentimento amoroso é o afeto que uma pessoa tem por outra. Pode ser correspondido ou não, amor mais ou menos não vale. Nem sempre a pessoa amada sabe o supõe que é amada.

Se correspondido ou não, numa relação sincera é preciso haver reciprocidade de desejo, de presença, de continuidade, de lealdade.

Os poetas românticos definem melhor esse sentimento afirmando que no romance não existem porquês e razões, como deliciosamente definiu Drummond:

“As sem-razões do amor: … Amor é dado de graça / e com amor não se paga…”.

Desejar retribuição é um desacerto poético; o amor não caminha se o outro não deseja ou não pode. Amor não correspondido, não aceito nem usufruído não é crédito, mas um mal sem remédio, um mau investimento porque não estabelece dívida.

Apaixonados prudentes evitam essas relações, amar é ótimo, é a força maior da vida, mas sempre faz sofrer, principalmente quando termina, desaquece ou pela ausência eterna da presença. Quanto mais completo for o equilíbrio dos sentimentos, qualidades, defeitos e a empatia, está pronta a  receita para a frase conhecida: “felizes para sempre”.

Enfim, sem a certeza desse equilíbrio, como frear o sentimento sem a certeza dessa harmonia?

Correspondência perene do amor é privilégio de poucos.

Revelações formais, poéticas e simbólicas não estão mais em moda, para não dizer desnecessárias. O silêncio, o olhar, o rubor, a palpitação, a frase que engasga, tudo são respostas involuntárias do corpo embaralhadas a frases não ditas e a toques não dados para revelar sentimentos duradouros. O corpo e o coração não mentem.

A infidelidade o que é senão o rompimento de um pacto amoroso que começa com o desleixo na preservação desse bem maior ou a excessiva confiança no outro.

O tema amor perdido ou traído está em todas as formas de expressão da arte, na poesia, na dança, no teatro, na ópera, na música, na literatura, no cinema, entre outras. A infidelidade é a consumação de um desafeto silencioso e não confesso.

Traições tantas acontecem ao redor da vida, na ética denegrida, na desobediência às leis, na corrupção, na imoralidade dos costumes, nas falsas verdades, no troco errado, no livro que  não devolveu…

Consertar uma perda tem só um meio inteligente de se erguer: recomeçando.

Sísifo, o mais astuto dos mortais da mitologia grega, por ter traído Zeus, foi condenado a rolar incessantemente uma rocha até o cume da montanha. “Ao chegar ao topo, o peso e o cansaço promovidos pela fadiga, o corpo sucumbia e a pedra rolava novamente até o chão, e no outro dia, deveria começar tudo novamente, e assim para todo o sempre”. – (Albert Camus – “O mito de Sísifo).

Sendo o amor sincero se torna difícil justificar a infidelidade. Mas a imperfeição do homem, ou mesmo sua sabedoria, trai-o, condena-o a empurrar as pedras da vida. Assim aconselhou Lupicínio Rodrigues:

“Este é o exemplo que damos aos jovens recém-namorados, que é melhor viver junto brigando do que chorar separados”.

E em Nietzsche, um aforismo bem lembrado e comentado pelo escritor Rubem Alves:

“Acusam-me de haver quebrado o meu casamento, mas poucos percebem que primeiro me quebrou”.

E assim se responde a alguns desapaixonados; morrem fiéis ao pacto de fidelidade e infiéis à vida e à felicidade.

Plinio Montagner

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